Thursday, April 14, 2005

Défice do Estado português - 1º capítulo

Desde a saída de Sousa Franco do Ministério das Finanças que temos assistido a um certo descontrolo das finanças públicas. Governos sucessivos (as duplas Guterres/Pina Moura, Barroso/Ferreira Leite e Santana Lopes/Bagão Félix) não têm conseguido controlar eficazmente a despesa pública corrente (foi mais fácil refrear inevstimentos do Estado, uma medida francamente negativa num país a sofrer um periclitante crescimento económico) nem aumentar consistentemente o nível de receitas do Estado (vamos ser sinceros, 19% de IVA, um imposto sobre o consumo, já é demais para uma economia a necessitar de reanimação, e os contribuintes dependentes já estão no limite da corda do que que podem pagar de impostos directos).

Todos os anos fomo-nos habituando a considerar como normais tentativas extraordinárias de escamotear o défice estrutural que se vinha a instalar nas contas públicas portuguesas - desde contabilizar como receitas do Estado alienações de participações da Partex, até à venda extraordinária de activos públicos e a transferência de fundos de pensões de empresas de participação pública para os regimes de pensões do Estado (o caso do fundo de pensões da CGD, um movimento claro contra uma economia liberal e de Estado de direito democrático). Tivémos inclusivamente o triste privilégio de assistir no final do ano passado a duas autênticas anedotas de má gestão de contas nacionais - o aumento desmesurado das previsões de crescimento do PIB para efeitos de Orçamento de Estado (que pressupunha questões tão realistas como a queda do preço do petróleo... - e estamos a falar do principal documento de gestão do Estado, o que é tão escandaloso que deveria comportar procedimentos judiciais contra quem elaborou e ratificou um documento tão mal feito - numa empresa privada, seria razão para despedimento imediato) e a constatação da derrapagem do défice a apenas 15 dias do final do ano (o que deu origem a afirmações públicas de altos responsáveis governativos tão incríveis como "Não há problema, estamos a abrir um processo negocial para vendermos participações da Petrogal na próxima semana para podermos fechar negócio antes do final do ano e contabilizar essas receitas para corrigir o défice" - qualquer pessoa que esteja em Vendas sabe que é um suícidio negocial darmos o queijo e faca à contra-parte numa venda, o nosso poder negocial fica tão diminuído que o preço de venda será irrisoriamente baixo). - é o resultado directo da política tipo 'Caras' (medidas de curto prazo, afirmações bombásticas que nunca passavam de intenções, preocupação excessiva com a imagem em lugar da tomada de decisões concretas, falta de capacidade analítica e financeira, incapacidade de gerir pessoas, incapacidade de ver mais além do que o muito curto prazo)

Mas as receitas extraordinárias têm um problema. São extraordinárias. Ou seja, não resolvem as verdadeiras questões e esgotam-se depressa. Por isso, Portugal deverá apresentar um défice orçamental de 4,9% em 2004, bem acima dos 3% do Pacto de Estabilidade. E, pela segunda vez em 5 anos, a vai ser instaurado a Portugal um processo por défice excessivo.

A acompanhar atentamente nos próximos tempos. Com a consciência que o país não se pode dar ao luxo de enfrentar os problemas de frente - como já não faz desde os tempos de Sousa Franco.

Monday, April 11, 2005

Bailarinas

Uma pequena dúvida (não completamente original, confesso):

Se as bailarinas são obrigadas a dançar em pontinhas dos pés, porque é que os ballets não contratam bailarinas mais altas?

Collies

Ontem à noite, cruzei-me com um collie. Que digo eu, claro que não me cruzei com um collie, cruzei-ma com uma collie. Como toda a gente sabe, desde a Lassie, não há collies machos. Só fêmeas (a forma como se reproduzem e continuam a aparecer cachorros collie continua a ser um mistério para todos nós, apesar da inseminação artificial de algum antepassado remoto oferecer uma explicação cabal para muitos de nós - o que também explicaria porque são as collie todas iguais!!!).

Sempre que uma pessoa vê alguém a passear um collie, a primeira pergunta é como é que ELA se chama. E ficaremos muito surpreendidos se acaso ela não se chamar Lassie ("Que pessoa estranha, não chamou Lassie ao cão - e ainda por cima é um collie").

Admitamos! É extraordinário como a televisão se mostra capaz de influenciar os nossos comportamentos., de uma forma duradoura. Uma série que passou há mais de 40 anos, continua a determinar a forma como vemos toda uma raça de cães. E isto acaba por ser apenas um exemplo óbvio. Se repararmos bem, hoje vestimo-nos de uma forma universal. Onde quer que nós vamos no Mundo, os padrões de vestuário são idênticos - os omnipresentes jeans, fato ocidental, calças femininas, saias, ténis, sapatos... Em apenas duas gerações, quase suprimimos completamente os vestuários regionais - hoje vistos pelas próprias populações de que são originários como algo folclórico e foleiro (nem é preciso irmos aos índios da Amazónia, basta pensar na perdida diversidade do vestuário típico português - o quê, pensavam que também não existia?)

A realidade é que, a televisão é capaz de veicular o pensamento e a forma de estar da população que a produz (séries, documentários, serviços noticiosos,…) e de torná-los dominantes num curto espaço de tempo, através de fenómenos de mimetização social. No fundo, como nos entra pelo nosso cérebro adentro uma determinada forma de pensar, de agir, de nos comportarmos, rapidamente assimilamos essa como a forma como devemos estar em sociedade, adoptando-a como a nossa. E este fenómeno é exponenciado por um grande número de indivíduos (a maioria) adoptar intrinsecamente esses mesmos comportamentos exactamente da mesma forma que nós, tornando-o o padrão dominante.